Sagrada Família: quando a arquitetura se torna um caminho para o encontro com Deus
A conclusão estrutural da Sagrada Família, em Barcelona, no ano do centenário da morte de Antoni Gaudí, marca um momento histórico para a arquitetura e para a Igreja. Mais do que a conclusão de uma obra iniciada há mais de um século, o templo se apresenta como um convite à reflexão sobre a relação entre espaço, liturgia, arte e experiência de fé.
Para a professora Raquel Tonini Rosenberg Schneider, especialista em espaços litúrgicos, a Sagrada Família não pode ser compreendida apenas como um monumento arquitetônico. A partir da reflexão apresentada pelo Papa Leão XIV em sua homilia de 10 de junho de 2026, ela destaca a imagem de um “templo em construção”, capaz de remeter à própria vida cristã: uma obra que continua sendo construída e na qual cada pessoa é chamada a colaborar.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que a Sagrada Família pode ser considerada uma espécie de “catecismo de pedra”. O edifício não comunica apenas por meio de palavras, mas também por suas formas, cores, materiais, luzes, sombras e pelo conjunto de seu programa arquitetônico e iconográfico. Para a professora, o templo oferece aos estudantes de Teologia uma oportunidade concreta de compreender como o espaço sagrado pode expressar a identidade e a dignidade da comunidade cristã reunida para celebrar.
Acompanhe a entrevista na íntegra:
ITESP: Professora Raquel, a conclusão estrutural da Sagrada Família ocorre exatamente no centenário da morte de Antoni Gaudí. Como esse marco histórico repercute na comunidade católica global e, especificamente, de que maneira a finalização dessa obra-prima enriquece a formação dos estudantes de Teologia no entendimento do espaço sagrado como um ‘catecismo de pedra’?
Raquel Tonini: Com pouco mais de 170 de altura, a torre central da Sagrada Família – a Torre de Jesus Cristo – tem seu exterior oficialmente finalizado, encimada pela cruz tridimensional de quatro braços, feita de vidro curvado e cerâmica esmaltada branca, brilhando como um farol, à noite, sobre a cidade de Barcelona. Esta Basílica se torna, assim, a igreja mais alta do mundo.
Na homilia do dia 10 de junho de 2026, data do centenário da morte de Antonio Gaudí, em sua homilia, o Santo Padre, o Papa Leão XIV, ressaltou que este edifício ultrapassa sua condição de monumento, pois “(…) continua a ser hoje uma obra em construção, que nos lembra como a vida cristã é sempre um caminho, porque se trata de um projeto que é levado a cabo por Deus”. Afirma assim que não se trata simplesmente de uma obra inacabada, mas “um templo em construção”, como cada um de nós, “pedras vivas desta obra, que tem Cristo como fundamento e ápice, princípio e fim”. Continua ele: “A sua imperfeição não é um defeito, pois testemunha um desejo; não significa uma falta, mas expressa uma promessa que queremos honrar com coerência”. Exorta-nos ainda à atenção, pois, “Uma vez que somos templo do Espírito Santo (cf. 1 Cor 6, 16.19), esta obra coincide com a nossa vida, que Deus concebe como uma obra-prima que devemos realizar juntos e para a qual nos chama a colaborar com Ele (cf. 1 Cor 3, 9)”. Assim, nosso olhar, admiração e contemplação diante desta obra nos provoca, colocando-nos não apenas na disposição de agradecimento pela genialidade do seu autor, mas, essencialmente, de comprometimento, diante do que esse edifício de pedras manifesta aos nossos olhos.
A Introdução do Capítulo II do Ritual da Dedicação de Igreja e Altar, por sua vez, ao tratar da natureza e dignidade da Igreja, escreve que a igreja-edifício, enquanto lugar da reunião da comunidade cristã, “aparece como sinal peculiar da Igreja peregrina na terra e imagem da Igreja habitante dos céus” (RDIA, II.I,2). Esta casa, deve, portanto, expressar, de algum modo, por meio de suas formas, cores, luzes e sombras, materiais, etc., a imagem da assembleia congregada (IGMR, 294).
A Sagrada Família, assim, desde seu projeto arquitetônico-litúrgico-iconográfico inicial, atravessando mais de uma centena de anos, embora atualizado e interpretado devido ao próprio correr do tempo, mas, totalmente respeitado, tem muito a nos ensinar. Ensina-nos sobre a natureza e dignidade do edifício destinado ao culto cristão, sobre os tempos necessários para a elaboração dos diversos projetos e suas etapas de desenvolvimento e sobre suas etapas de execução; e, ainda, sobre a transformação da matéria, através das formas, materiais, cores, luzes e sombras; nos ensina, também, sobre um trabalho interdisciplinar e, assim, necessariamente realizado em equipe, com a participação do bispo, do pároco, de liturgistas e teólogos, da comunidade local, do arquiteto e profissionais de diversas formações, das instâncias de aprovação civil e eclesiástica, entre outros. Podemos dizer que, necessariamente também, é um processo sinodal, pois exige escuta no Espírito, comunhão, disposição, abertura. Ensina-nos, portanto que, sendo imagem visível de uma realidade invisível, o edifício igreja, nas suas mais diversas variações – tendo em vista que “A Igreja nunca considerou um estilo como próprio seu, mas aceitou os estilos de todas as épocas, segundo a índole e condição dos povos e as exigências dos vários ritos, criando deste modo no decorrer dos séculos um tesouro artístico que deve ser conservado cuidadosamente” (SC 124) –, nos conduz ao assombro, ao estupor, ao maravilhamento e, assim, a uma experiência do encontro com o Transcendente, com o Totalmente Outro, o nosso Deus Uno-Trino revelado em Jesus Cristo, por meio da sua arquitetura-arte.
ITESP: Como especialista em espaços litúrgicos, como a senhora avalia o potencial desse templo, agora em sua plenitude arquitetônica, para ser plenamente aproveitado por liturgistas e fiéis? De que forma a monumentalidade e a disposição interna projetadas por Gaudí servem à ação litúrgica e à experiência do mistério divino hoje?
Raquel Tonini: Trata-se efetivamente, de um monumento, e como destaca o Papa Leão XIV, “(…) um edifício único, constituído por muitas pedras. Uma casa que cresce continuamente ao longo dos anos, seguindo um mesmo projeto”. É necessário considerar o tempo da sua construção, situá-lo no contexto histórico e eclesiológico. Entretanto, a técnica construtiva, a organicidade das estruturas e dos mais diversos elementos que dão forma ao edifício, garantem a unicidade desse templo e a grandiosidade expressada tanto pelo seu volume quanto pela experiência de assombro, de estupor de quem adentra em seus espaços.
A Sagrada Família é, estruturalmente e em todos os seus elementos, concebida como um bosque, um jardim, onde as colunas são as árvores e as aberturas com luz filtrada pelas formas e cores dos vitrais cria um ambiente transfigurado. O ser humano é conduzido a elevar seu olhar para o alto, se elevar a Deus. A imagem do jardim na simbologia cristã é de grande riqueza: lugar do encontro, do diálogo, da relação, onde Deus vem para estar com o ser humano, lugar protegido, guardado, seguro, lugar centrado e ordenado.
Também suas fachadas apresentam um rico programa iconográfico, são um anúncio do que se encontrará internamente e um convite ao ingresso. Há uma coerência volumétrica entre o exterior e o interior, o que provoca o espectador ao ingresso é encontrado no interior. Assim, desde a passagem pela porta, todo o espaço é cuidadosamente trabalhado em cada detalhe, favorecendo a ação litúrgica em todos os sentidos.
Outro dado fundamental é a garantia da continuidade do projeto, em busca da sua execução. Gaudí entende a arquitetura como uma criação total, cujo núcleo central é a Natureza. Trata-se de um edifício monumental, como afirmou o Papa Leão XIV, mas, esse não é seu adjetivo primeiro ou mais significativo. Isso também importa diretamente a nós, ao nosso tempo, pois, nem toda obra trará consigo essa monumentalidade, entendida por muitos como grandiosidade ou suntuosidade. O que deve ser garantido, a exemplo da Sagrada Família, é sua unidade projetual, que garante a natureza do edifício como sinal e símbolo da Jerusalém Celeste e imagem da Igreja peregrina na terra que, em sua nobre simplicidade é bela, simbólica e adequada às ações litúrgicas e, assim, capaz de promover a participação da assembleia celebrante, corpo de Cristo.
Antoni Gaudí, de fato, influenciou a arquitetura contemporânea com uma linguagem única, inspirada pela natureza, inovando com soluções estruturais oriundas de formas orgânicas e, provando, assim, que a arquitetura tem a capacidade de ser técnica e poética, funcional – aqui, tratamos sobretudo da funcionalidade litúrgica – mas, também carregada de afetividade e emoção. Nesse sentido, podemos trazer o testemunho da nossa grande Adélia Prado, quando nos adverte com poesia que “A missa é a coisa mais absurdamente poética que existe. É o absolutamente novo sempre. É Cristo se encarnando, tendo a sua Paixão, morrendo e ressuscitando. Nós não temos de botar mais nada em cima disso, é só isso”, ou seja, “Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum”.
Na Sagrada Família, Gaudí “programa o significado catequético de maneira ordenada para todos o edifício, o que não costuma ocorrer completamente nas catedrais, em razão de mudanças no projeto ao longo da construção” (RAMIS, R; SERRRA, P. org. Gaudí: Barcelona 1990. São Paulo: Ministério da Cultura, Instituto Tomie Ohtake).
Assim, é fundamental que o programa de necessidades, amplo e pontual, adequado às realidades locais e em total atendimento à legislação vigente, seja contemplado com um projeto arquitetônico que integre desde sua concepção o programa iconográfico, definindo os centros da ação litúrgica e demais lugares, as estruturas, as aberturas e fechamentos que darão forma ao edifício, bem como a escolha dos materiais dignos e nobres em sua autenticidade, entre outros tantos elementos, mas, sempre a partir da liturgia, “seguindo a via da encarnação, através da linguagem simbólica do corpo que se prolonga nas coisas, no espaço e no tempo” (DD 19). O espaço gerado pela liturgia celebrada dá a essa mesma assembleia a possibilidade de ser habitado.
ITESP: Gaudí imortalizou o uso de formas orgânicas, estruturas hiperbólicas e uma profunda leitura da natureza (com colunas que simulam árvores e abóbadas que filtram a luz como copas de florestas). Em um panorama contemporâneo dominado pelo minimalismo e pelo brutalismo, como os arquitetos de hoje enxergam esse vocabulário artístico tão ornamental, complexo e expressivo?
Raquel Tonini: Algumas características da obra de Gaudí são fundamentais para nosso estudo nos dias atuais. Com a arquitetura “quilômetro zero” o arquiteto se preocupa em buscar materiais locais, inclusive com o reaproveitamento de elementos fora de uso, ou seja, um verdadeiro processo de reciclagem, na medida em que estes são ressignificados e dignificados. Além disso, há uma clara preocupação com a ergonomia.
Gaudí é filho do seu tempo e da sua terra. Isso não o impede de ser criativo, genial. As formas orgânicas, estruturas hiperbólicas e uma profunda leitura da natureza estão em profunda união com o ser humano, que não suporta o vazio, o nada, a dureza e indiferença muitas vezes presentes em uma arquitetura que não dialoga com a realidade local. Isso não diz respeito à inexistência de espaços vazios, necessários e que dão sentido ao conjunto da obra. E o mesmo vale para o uso excessivo do branco, que, para além de um ambiente clean, se torna muitas vezes impessoal. O equilíbrio, a harmonia, e assim, a beleza, tem origem nessa integridade. A arquitetura é uma criação total, somente quando se assemelha – não como imitação – com a natureza, segundo o pensamento de Gaudí. É possível assim, entender porque as paredes ou espaços vazios em nossas igrejas são, muitas vezes, preenchidas, com cartazes, imagens sobre pedestais não projetados, vasos com plantas, ou outros elementos, criando um ambiente confuso, desfigurado da sua original proposta arquitetônica-iconográfica. Não há lugar para excessos, tampouco vazios, cada detalhe está para o conjunto.
É fundamental, portanto, que o projeto elaborado seja um projeto total, litúrgico, simbólico – que contempla o programa de necessidades imediato, a partir do programa de necessidades amplo –, traduzindo em formas, materiais, cores a experiência de fé cristã, fundada na Sagrada Escritura e na Tradição, atualizada pelo Magistério da Igreja e moldada pela Liturgia.
ITESP: A Sagrada Família é o ápice da fusão entre engenharia, arte e mística. Qual é a principal lição que os arquitetos contemporâneos devem extrair desse projeto ao projetar novas igrejas, garantindo que a técnica e a estética estejam rigorosamente a serviço da liturgia e não o contrário?
Raquel Tonini: Os avanços obtidos ao longo destes quase centro e cinquenta anos são de grande importância, entretanto, uma lição primordial é a necessária compreensão e, ainda mais, experiência, em relação à natureza e dignidade do edifício eclesial, somado à necessidade do trabalho em conjunto, do diálogo com todas as partes envolvidas, onde todos se coloquem na disposição da escuta e do respeito às atividades próprias de cada atividade. É preciso conhecer e, sobretudo, vivenciar os ritos da Igreja. É preciso trabalhar
com materiais nobres, visar a nobre simplicidade e a beleza que dela nasce, ser coerente com o tempo atual e responder, a partir da liturgia, às demandas dos espaços destinados às celebrações da comunidade, pois esse edifício, na medida que tem na liturgia sua “forma”, torna-se mistagógico, ou seja, em poucas palavras, capaz de introduzir e conduzir o fiel no mistério, ao encontro com o Senhor.
5) Foram 144 anos de construção até a conclusão da estrutura principal em 2026. Em uma sociedade marcada pelo imediatismo, o que o processo de edificação da Sagrada Família nos ensina sobre a paciência da Igreja, a transmissão de saberes entre gerações de construtores e a própria teologia do Tempo de Deus (Kairós)?
Raquel Tonini: Tendo como certo que toda intervenção no edifício eclesial é uma ação pastoral, que exige atendimento às orientações da Igreja com os critérios e fundamentos próprios, e, também, uma oportunidade concreta e necessária de formação “para a liturgia e pela liturgia” (DD 34), a construção da igreja de pedra deve ser acompanhada pela contínua “edificação” da Igreja, constituída de pedras vivas (1Pe 2,5). Isto posto, é na medida em que a assembleia é formada e reformada pela liturgia que celebra, as paredes da sua casa nesta terra são erguidas e, dessa forma, esse edifício poderá cumprir com sua finalidade de “oferecer à Igreja que celebra os mistérios de fé, especialmente a Eucaristia, o espaço mais idôneo para uma condigna realização da sua ação litúrgica” (SCa 41).
Diante disso, é preciso ter em vista que o processo de planejamento de qualquer intervenção, implica, à exemplo das etapas de elaboração de um projeto arquitetônico-iconográfico-litúrgico – independentemente de cada realidade, mas a ela devidamente adequado –, etapas possíveis de formação, antes, durante e depois cada etapa de projeto e também de execução, tendo em vista intervenções que garantam a digna ação litúrgica, com seus ministérios e, com espaços belos e simbólicos, promovam a participação ativa e consciente da assembleia celebrante (SC 14,19,26,27,30,…).
Essa metodologia de ação pastoral exige tempo de preparação e assimilação, planejamento, um projeto pastoral, para que toda a ação seja o mais eficaz e eficiente possível, em favor da assembleia celebrante constituída dos discípulos-missionários eleitos, chamados, convocados e enviados por Nosso Senhor Jesus Cristo.
Por: Arison Lopes, Comunicação ITESP.
Imagem: Reprodução Internet
