Da sala de aula à missão: dois anos no Quênia transformam a compreensão vocacional e teológica de aluno do ITESP
Após dois anos em missão no Quênia, o aluno Claudio Fernandes Jesus, do Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP) retorna ao Brasil trazendo na bagagem muito mais do que experiências pastorais: traz marcas profundas de encontro, silêncio, escuta e transformação. Entre a aprendizagem do idioma, a convivência com o povo da tribo Pokot e os desafios da primeira evangelização, sua vivência na África ressignificou conceitos estudados em sala de aula e deu novo horizonte à própria vocação.
No primeiro ano, a imersão linguística na Holy Ghost School, em Sultan Hamud, e o estágio pastoral na região de East Pokot revelaram que, quando as palavras faltam, a missão encontra outros caminhos. Sem domínio suficiente do swahili e do pokot, a comunicação passou a acontecer por meio de gestos simples e universais: o olhar atento, o sorriso, o aperto de mão, a presença silenciosa. Foi nesse terreno aparentemente frágil que ele descobriu a força da proximidade e compreendeu que a Igreja se constrói nas relações humanas.
Já no segundo ano, inserido na dinâmica estruturada da comunidade, os desafios pastorais provocaram questionamentos profundos sobre a dignidade humana, o acompanhamento dos fiéis e a efetividade do anúncio do Evangelho em um contexto onde a Igreja está presente há cerca de três décadas. A experiência o levou a integrar, de modo mais concreto, a teologia aprendida no ITESP com a realidade viva do povo, ampliando sua visão sobre missão, inculturação e Igreja em saída.
Acompanhe a entrevista na íntegra:
ITESP: Claudio, ao retornar ao ITESP após dois anos no Quênia, como a imersão no idioma e na cultura local, vivida no primeiro ano, transformou seu modo de compreender a missão e a presença da Igreja junto aos povos?
Claudio: A imersão linguística e cultural iniciou-se no primeiro semestre do ano na Escola Holy Ghost School, em Sultan Hamud, e estendeu-se ao estágio pastoral na Área Pastoral São Lucas – Tangulbei – East Pokot, região de primeira evangelização. Foi uma experiência desafiadora e, ao mesmo tempo, profundamente transformadora. Sem conseguir assimilar adequadamente os idiomas locais, Swahili e Pokot, a comunicação verbal ficou bastante limitada. Na ausência das palavras, passamos a nos comunicar por meio de gestos simples e profundamente humanos: o abraço, o aperto de mão, a presença silenciosa, o sorriso, o olhar atento e a escuta ativa — gestos que expressavam respeito e afeto. A presença da Igreja constrói-se por meio das relações interpessoais e da proximidade afetiva, na escuta sincera e na partilha da vida. Com o auxílio de pessoas da própria comunidade que falavam inglês, juntamente com a disposição de estar presente e de se deixar tocar pela realidade do outro, foi possível construir pontes de diálogo, compreensão e comunhão. Assim, a limitação linguística transformou-se em um verdadeiro caminho de aprendizado humano e espiritual, revelando-nos que, na autenticidade do amor, sempre encontramos formas de nos comunicar.
ITESP: No segundo ano, já inserido na missão estruturada na comunidade, quais experiências pastorais mais desafiaram aquilo que você havia aprendido na Teologia e como isso ampliou sua visão sobre a prática missionária?
Claudio: O processo de inculturação e as estruturas pastorais locais provocaram profundos questionamentos em relação à dignidade humana e à efetividade do anúncio do Evangelho naquele contexto de primeira evangelização, no qual a Igreja se faz presente há cerca de 30 anos. A estrutura pastoral, que consiste principalmente em acolher e preparar as pessoas para a recepção dos sacramentos, apresenta fragilidades no acompanhamento contínuo dos fiéis. Essa realidade exigiu muita sensibilidade, discernimento e uma atitude permanente de oração e diálogo. Os fundamentos teológicos contribuíram para que minha experiência missionária fosse fecunda, pois se desenvolveu a partir do encontro com a vida concreta do povo, numa postura de acolhimento, escuta, compaixão e serviço. Isso ampliou minha compreensão do dinamismo da missão, tornando-a mais encarnada, misericordiosa e comprometida com o Evangelho e com a promoção da dignidade humana.
ITESP: De que maneira a convivência diária com a fé do povo queniano ajudou você a perceber, na prática, conceitos como inculturação, Igreja em saída e missão ad gentes?
Claudio: O povo da tribo Pokot, que representa um pequeno recorte da diversidade do povo queniano, expressa uma fé simples, profunda e extremamente vibrante, constituindo-se numa verdadeira escola espiritual. Conviver com eles, participando das celebrações eucarísticas, dos momentos de oração comunitária, dos cantos, das danças litúrgicas e das diversas expressões culturais, ajudou-me a compreender, de modo concreto, o sentido e a relevância da inculturação na primeira evangelização: um Evangelho encarnado na história, nos símbolos e na sensibilidade própria de cada povo, que não pode ser negligenciado, mas valorizado e potencializado. A experiência da Igreja em saída manifestou-se na disponibilidade para atender às necessidades do povo e na partilha da vida cotidiana; no entanto, percebi também a necessidade de aprofundar esse conceito e vivê-lo com maior empenho e efetividade pastoral. Já a missão ad gentes deixou de ser apenas um conceito teórico, tornando-se uma experiência viva de encontro, diálogo e testemunho, na qual o anúncio do Evangelho acontece sobretudo por meio da presença, do serviço, da escuta e do amor gratuito na partilha da fé.
ITESP: Como essa experiência missionária impactou e amadureceu sua vocação como religioso espiritano e sua identidade como futuro teólogo?
Claudio: A missão em East Pokot foi um tempo privilegiado de graça, purificação interior e amadurecimento vocacional. A realidade marcada pela pobreza, pela exclusão e pela luta cotidiana pela sobrevivência levou-me a uma reflexão profunda sobre minha vocação e a uma entrega cada vez mais confiante nas mãos de Deus. Senti-me confirmado no chamado a viver uma vida totalmente doada à missão, à luz do carisma dos nossos fundadores, o Venerável Pe. Francisco Libermann e o Servo de Deus Pe. Cláudio Poullart des Places. Como futuro teólogo, compreendo que a reflexão teológica não pode se afastar da realidade, mas deve brotar do contato com a vida concreta do povo, da escuta de seus clamores, da contemplação de suas expressões de fé e do compromisso com a promoção da dignidade humana e da transformação social. Essa experiência fortaleceu minha identidade como Missionário Espiritano e consolidou meu desejo de servir à Igreja na Congregação do Espírito Santo, sob a proteção do Imaculado Coração de Maria, com um coração disponível e profundamente comprometido com os mais necessitados.
ITESP: Ao voltar para o ITESP em 2026, o que você deseja partilhar com colegas e professores para enriquecer a formação teológica a partir da vivência concreta da missão?
Claudio: Ao retornar ao ITESP, desejo partilhar, sobretudo, a riqueza da vida missionária como caminho de transformação humana, espiritual e pastoral. Quero testemunhar que a missão educa o olhar, purifica as intenções, aprofunda a fé e ensina a confiar na ação de Deus. Desejo contribuir para que a formação teológica esteja cada vez mais conectada com a realidade concreta dos povos, favorecendo uma teologia mais encarnada, sensível aos sofrimentos humanos e comprometida com a justiça social e com a dignidade da vida. Espero poder ajudar meus colegas e professores a perceberem que a missão não é apenas um campo de aplicação da teologia, mas um verdadeiro espaço teológico, onde Deus continua a se revelar de modo vivo, surpreendente e transformador.
A convivência diária com a fé vibrante do povo queniano transformou conceitos como missão em experiência concreta de encontro e partilha. A teologia deixou de ser apenas reflexão acadêmica para tornar-se escuta dos clamores, contemplação das expressões culturais e compromisso com a promoção da dignidade humana.
De volta ao ITESP em 2026, ele deseja partilhar com colegas e professores não apenas relatos, mas uma convicção amadurecida: a missão não é somente campo de aplicação da teologia, mas um verdadeiro espaço teológico, onde Deus continua a se revelar na história concreta dos povos. Sua trajetória reafirma que a formação acadêmica ganha plenitude quando dialoga com a vida real, especialmente com a vida dos que mais precisam.
Por: Arison Lopes, Comunicação ITESP.
Imagem: Arquivo Claudio Fernandes Jesus
