1º de abril: Dia da Abolição da Escravidão Indígena e o papel do Ensino Superior na reflexão histórica

A história da escravidão no Brasil está, frequentemente, associada ao tráfico transatlântico de africanos. No entanto, uma faceta muitas vezes negligenciada desse passado violento é a escravidão dos povos indígenas. Embora a primeira lei que aboliu a escravidão indígena tenha sido promulgada há 270 anos, apenas três anos depois a proibição se tornou efetiva em todo o território. Ainda assim, essa prática continuou em muitas regiões de forma clandestina.
Desde a chegada dos portugueses, os povos originários foram alvo da exploração colonial, muitas vezes sob justificativas religiosas ou econômicas. Termos como “guerra justa” eram empregados para legitimar a captura e a escravização de indígenas que resistiam à colonização e à imposição cultural europeia. Alianças com algumas etnias facilitaram a colonização, enquanto grupos considerados “inimigos” eram perseguidos e escravizados. O envolvimento de ordens religiosas nesse processo também foi significativo, pois, embora alguns religiosos se posicionassem contra a escravidão formal, os aldeamentos missionários frequentemente impunham uma servidão forçada.
A escravidão indígena foi impulsionada pela falta de recursos para comprar escravizados africanos em certas regiões, como São Paulo, Maranhão e Amazônia. Os bandeirantes, muitas vezes considerados heróis na historiografia tradicional, foram agentes centrais na captura sistemática de indígenas, abastecendo a mão de obra forçada das plantações e lavouras do período colonial.
Embora oficialmente abolida em 1755, a escravidão indígena continuou a ocorrer, e sua herança persiste até os dias atuais, refletida nas desigualdades sociais e na vulnerabilidade de populações indígenas ao trabalho análogo à escravidão. A data de 1º de abril, marco da abolição da escravidão indígena, é um convite à reflexão sobre essa parte silenciada da história do Brasil e a necessidade de manter viva a memória e a resistência dos povos originários.
O papel do Ensino Superior e da Teologia na reflexão histórica
O ensino superior, especialmente cursos como Teologia, pode desempenhar um papel fundamental no aprofundamento desse debate e na promoção da justiça histórica. A Teologia, por exemplo, não se restringe apenas ao estudo das escrituras e doutrinas religiosas, mas também aborda questões sociais, históricas e culturais. No contexto da escravidão indígena, é essencial que a academia fomente a compreensão crítica do papel das instituições religiosas no processo colonial e na imposição de normas culturais e econômicas que marginalizaram os povos originários.
Os alunos de origem indígena podem contribuir de maneira singular para essa discussão, compartilhando suas perspectivas e vivências, e ajudando a desmistificar narrativas eurocêntricas. Eles têm a oportunidade de trazer para a sala de aula um olhar mais autêntico sobre a história de seus povos, promovendo um debate mais inclusivo e enriquecedor. O estudo das escrituras também pode oferecer uma reflexão crítica sobre como discursos religiosos foram utilizados tanto para justificar quanto para combater a escravidão, evidenciando a complexidade da relação entre fé, moral e justiça social.
“Precisamos nos conscientizar sobre a responsabilidade que temos, como sociedade, acerca das estruturas que marginalizam os indígenas e o povo preto. Como descendente Tupiniquim, sinto na pele a luta para garantir direitos mínimos às aldeias do norte do Espírito Santo, onde estão meu povo e minha família. Nossa luta envolve, entre outros aspectos, a implementação efetiva dos Direitos Humanos e a busca por justiça histórica para os povos originários do Brasil. Como estudante de teologia e missionário SVD em formação, considero essencial que essa temática receba a devida atenção no meio acadêmico, pois estamos sendo preparados para caminhar junto ao Povo de Deus com consciência e compromisso com a justiça”. Yulles Morais da Vitória (2º ano de Teologia)
A reflexão acadêmica também pode ajudar a resgatar a história dos povos originários e fortalecer suas lutas atuais. Estudos sobre direitos humanos, história e teologia da libertação, por exemplo, podem embasar projetos e iniciativas que busquem reverter os impactos da marginalização histórica dessas comunidades.
Portanto, a data de 1º de abril não deve ser apenas um registro histórico, mas um ponto de partida para aprofundar debates e conscientizar a sociedade sobre a presença e a importância dos povos indígenas na construção do Brasil. O ensino superior tem a responsabilidade de promover esse diálogo, reconhecendo e valorizando as vozes indígenas no cenário acadêmico e social. Afinal, compreender e divulgar essa história é um passo fundamental para construir um país mais justo e consciente de seu passado.
Por: Arison Lopes, Comunicação ITESP.
Foto: Edgar Kanaykõ Xakriabá (@edgarkanayko)