A teologia que nasce no colo: paternidade, fé e formação na vida de Ueslei Cruz

A teologia que nasce no colo: paternidade, fé e formação na vida de Ueslei Cruz
Imagem: Arquivo Ueslei Cruz.

A notícia da paternidade não chegou de forma comum à vida de Ueslei Cruz. Veio no meio de um turbilhão de sentimentos, responsabilidades e processos pessoais profundos. Aluno do 3º ano de Teologia do ITESP, conciliando os estudos com o trabalho, ele se viu, de repente, atravessado por uma experiência que mudaria não apenas sua rotina, mas sua forma de compreender a vida, a fé e a própria teologia.

Pouco tempo antes, Ueslei havia enfrentado a dor da perda trágica do irmão mais novo, Pedro. A família ainda tentava encontrar sentido em meio ao luto quando a notícia da gravidez de sua então namorada, hoje esposa, chegou como aquilo que ele mesmo descreve, em linguagem teológica, como uma “boa nova”. O nascimento de João Pedro não apagou a ausência do irmão, mas trouxe à família um sopro de esperança, uma razão para continuar caminhando. O nome do filho carrega essa memória viva, entrelaçando dor e esperança na mesma história.

A partir desse acontecimento, a teologia deixou de ser apenas conteúdo acadêmico e passou a dialogar diretamente com a experiência concreta da vida. A paternidade deslocou Ueslei do centro das próprias preocupações, reorganizou suas prioridades, trouxe novas responsabilidades e o fez revisitar temas profundos como a imagem de Deus Pai, as relações familiares, o cuidado, a maternidade, o sofrimento e o papel do homem na dinâmica familiar. Entre noites mal dormidas, desafios do pós-parto e reflexões amadurecidas também no acompanhamento terapêutico, ele passou a enxergar como a fé e a teologia podem iluminar, purificar e humanizar experiências muito reais do cotidiano.

Nesta entrevista, Ueslei partilha, com sensibilidade e profundidade, como a chegada do filho transformou sua maneira de viver a vocação cristã, de compreender a missão da teologia no mundo atual e de assumir, com ainda mais responsabilidade, o compromisso de construir, a partir da própria vida, um mundo mais justo, humano e coerente com o Evangelho.

Acompanhe a entrevista na íntegra:

ITESP: Ueslei, como a notícia da paternidade chegou à sua vida neste momento tão intenso de formação pessoal e acadêmica?

Ueslei: Estou no terceiro ano de Teologia, conciliando os estudos com o trabalho, e agora vivendo, pela primeira vez, a experiência de ser pai. A chegada dessa notícia aconteceu num momento extremamente intenso da minha formação pessoal e acadêmica. E ela chegou como uma grande notícia, uma grande alegria, uma verdadeira boa nova, usando o termo teológico.

Cerca de um ano antes, eu havia perdido meu irmão Pedro numa tragédia terrível. Pouco tempo depois, veio a notícia da gravidez da minha então namorada, hoje esposa. Para nós, isso foi vivido como um sinal muito forte, quase como uma intervenção de Deus. Inclusive, o nome do nosso filho, João Pedro, é também, em parte, uma homenagem ao meu irmão — uma forma de manter viva a sua memória dentro da nossa história familiar.

Lembro-me de estar no hospital durante a internação do meu irmão e de olhar para a minha mãe e para o meu padrasto, já em idade avançada, que haviam perdido de forma abrupta um filho de apenas 15 anos. O sentido da vida deles girava muito em torno do Pedro. Naquele momento, fui tomado por uma profunda compaixão e pensei que talvez a única coisa capaz de devolver alguma esperança àquela família fosse uma nova vida.

A gravidez, embora inesperada, foi desejada nesse sentido profundo: porque a nossa família precisava de um motivo para continuar vivendo. É claro que meu filho jamais substitui o meu irmão. O lugar do Pedro é único, sagrado e precisa ser preservado. Mas, ao mesmo tempo, a chegada de uma nova vida trouxe esperança. O mais bonito é que praticamente toda a família fez essa mesma leitura, e eu nunca me senti julgado. As pessoas próximas compreenderam o bem que aquela notícia faria para todos nós.

ITESP: Depois do nascimento do seu filho, o que mais mudou na sua maneira de olhar para o futuro e para as suas próprias responsabilidades?

Ueslei: Mudou muita coisa. Um filho muda tudo. Eu escrevi uma música chamada Coração Fora do Peito, em que digo que houve um deslocamento interior: eu já não estou mais no centro. E acredito que isso seja o amor.

Nem eu nem minha esposa estamos mais no centro das nossas preocupações. Agora existe uma vida que ocupa esse lugar. Antes, eu era mais despreocupado, inclusive com questões práticas, como organização financeira. Hoje isso mudou completamente. Passei a planejar mais, a pensar no futuro, porque preciso pensar nele.

As minhas escolhas ganharam um novo critério. Já não são feitas apenas a partir de mim. Mesmo na vivência religiosa, onde somos chamados a pensar nos outros, agora há uma responsabilidade muito concreta: existe uma vida que depende diretamente de mim. Isso muda tudo.

ITESP: Em que momento você percebeu que a teologia deixou de ser apenas conteúdo acadêmico e passou a dialogar diretamente com a sua experiência de pai?

Ueslei: Essa percepção veio muito a partir de reflexões pessoais e também de conversas no processo terapêutico. Um tema que me marcou muito foi a ideia de que um dos grandes desafios da paternidade é não repetir automaticamente a relação que tivemos com o nosso próprio pai.

Muitas vezes, quem teve um pai muito rígido tende a reproduzir essa rigidez, ou então reage oferecendo uma liberdade excessiva e pouco saudável. Isso me levou a pensar que eu não sou o meu pai, e também não devo viver a paternidade apenas como reação a ele.

Nesse ponto, a teologia entrou com muita força. Percebi que a imagem que temos do pai humano influencia diretamente a forma como nos relacionamos com Deus Pai. Às vezes, nossas dificuldades espirituais nascem de experiências humanas mal resolvidas.

Fui entendendo que Deus Pai não é o meu pai terreno, e que eu também não sou o meu pai na relação com o meu filho. O meu relacionamento, por vezes difícil, com meu pai não pode interferir nem na minha relação com Deus, nem na paternidade que sou chamado a viver. Pelo contrário, a experiência teológica pode purificar a imagem de Deus como Pai amoroso e, a partir disso, inspirar uma paternidade mais humana e equilibrada.

A teologia tem me ajudado muito a reler a paternidade e, especialmente, a experiência concreta da maternidade que minha esposa viveu. O que percebemos, tanto na nossa família quanto na cultura ao nosso redor, é o peso de valores profundamente marcados por uma sociedade patriarcal e por uma má interpretação do cristianismo, sobretudo no que se refere ao sofrimento.

Existe quase uma idealização do sofrimento materno, como se sofrer fosse condição para ser mãe de verdade. Vimos isso no parto, quando mesmo diante de um quadro de eminência de eclâmpsia, minha esposa recebeu pressões para que o parto fosse normal, como se colocar a própria vida em risco fosse parte essencial da maternidade. Depois, isso reapareceu de forma muito concreta na amamentação, quando se dizia que era preciso continuar mesmo com dor, mesmo com o peito machucado e sangrando, porque “isso é ser mãe”.

O que nos ajudou a romper com isso foi ouvir a ciência e, curiosamente, foi ali que encontramos algo profundamente coerente com o Evangelho: amamentar com dor não é normal. A dor é sinal de que algo não vai bem e precisa ser cuidado. Descobrimos que é possível amamentar sem dor. O que era tratado como normal, na verdade, era um sofrimento desnecessário que foi naturalizado.

Isso me fez perceber como certas leituras religiosas acabam reduzindo a maternidade a um caminho de purificação pelo sofrimento, como se a mulher precisasse pagar uma dívida para alcançar o céu. Ouvi recentemente um pregador dizer que a maternidade é o caminho para o céu justamente por causa do sofrimento que ela impõe. Para mim, isso não exalta a maternidade, mas a diminui, como se fosse algo a ser suportado e não vivido em plenitude.

A teologia me ajudou a entender que o sofrimento existe, faz parte da vida, mas não deve ser buscado, nem imposto, nem transformado em critério de santidade. Muito menos colocado como fardo exclusivo sobre as mulheres.

Também me ajudou a questionar o patriarcado presente até nas pequenas coisas: a ideia de que a mulher deve cuidar integralmente da criança enquanto o homem se dedica apenas ao trabalho e à provisão. A paternidade me revelou que o cuidado é responsabilidade compartilhada e que o Evangelho nos chama a relações mais justas, humanas e libertadoras.

No fim, a teologia não me afastou da vida concreta, ela me deu instrumentos para defendê-la.

ITESP: Vivemos um tempo marcado por excesso de informação, redes sociais e crises de valores. Como pai, quais desafios mais o preocupam e que respostas a teologia pode oferecer?

Ueslei: Vivemos, sem dúvida, um tempo preocupante, mas procuro não ser excessivamente pessimista. Historicamente, nunca houve uma época perfeita. Toda época tem suas belezas e suas mazelas.

É claro que vivemos uma mudança de paradigma muito forte com a internet e as redes sociais. Na minha própria história familiar, essa dificuldade foi sentida de forma muito concreta. A perda do meu irmão esteve relacionada, entre outros fatores, a esse universo digital, com o qual nós, como família, não soubemos lidar adequadamente.

Como pai, tenho amadurecido a convicção de que eu e minha esposa somos uma espécie de “rampa” para o nosso filho: ajudamos a criar condições para que ele possa voar. Isso passa por decisões muito concretas, como postergar o acesso às telas, e também por um esforço nosso de coerência.

Acredito que a teologia tem muito a oferecer nesse contexto. O Brasil é um país profundamente religioso, mas nem sempre essa religiosidade é acompanhada de discernimento. Uma teologia bem-feita ajuda a construir uma imagem justa de Deus, promove equilíbrio, senso crítico e respeito às outras religiões. Ela oferece ferramentas para uma leitura mais madura da realidade.

ITESP: Como tem sido, na prática, conciliar trabalho, graduação em teologia e paternidade? O que tem sido sua força e sustentação?

Ueslei: Conciliar tudo isso não é simples. Mesmo estando de férias da faculdade quando meu filho nasceu, senti fortemente o peso dessa nova fase. O recém-nascido é extremamente dependente e frágil, e isso gera medo, insegurança e muito cansaço físico.

As noites mal dormidas, as tensões naturais do casal e a necessidade de sensibilidade com a esposa no período do pós-parto tornam tudo ainda mais desafiador. Por isso, a maior sustentação tem sido a família. Educar um filho exige rede, confiança e ajuda.

Outra grande fonte de força é a fé. Procuro manter uma vida de oração constante, com a meditação diária da Palavra, muitas vezes a partir das reflexões dos Papas. A participação na comunidade, mesmo que mais limitada neste momento, e a oração do terço fazem parte desse sustento espiritual cotidiano.

ITESP: Quando você olha para o seu filho hoje, que mundo deseja que ele encontre e que mundo sente ser chamado a ajudar a construir a partir da teologia?

Ueslei: Quando olho para o mundo atual, confesso que sinto medo. Vivemos um tempo marcado por guerras, extremismos e uma enorme capacidade de destruição. Por isso, o primeiro desejo que tenho é muito concreto: que meu filho encontre um mundo inteiro, um mundo que exista, não destruído.

Desejo que ele cresça em um ambiente de mais paz, justiça e respeito pelo diferente. Que aprenda a se posicionar, a defender valores humanos e a construir relações justas.

Enquanto estudante de Teologia, sinto que a primeira contribuição que posso oferecer para esse mundo começa no meu próprio modo de ser. Os filhos aprendem muito mais pelo exemplo do que pelas palavras. Ser um pai íntegro, um esposo íntegro e um cristão coerente no cotidiano é, para mim, o primeiro passo.

A teologia começa no “ser” antes de se expressar no “fazer”. E, a partir disso, consigo também aplicar o que aprendo no meu trabalho no Vicariato Episcopal da Caridade Social, promovendo o bem, a justiça, a paz e a solidariedade. É nesse chão concreto da vida que a teologia encontra seu verdadeiro sentido.

Por: Arison Lopes, Comunicação ITESP.

Imagem: Arquivo pessoal Ueslei Cruz.