Vozes que resistem: a atualidade de Carolina Maria de Jesus na formação teológica e social

Vozes que resistem: a atualidade de Carolina Maria de Jesus na formação teológica e social
Imagem: Reprodução Internet.

A partir de uma entrevista realizada pelo Instituto São Paulo de Estudos Superiores (ITESP) com a escritora, educadora e pesquisadora Beta Ferreira, a figura de Carolina Maria de Jesus ressurge com força como símbolo de resistência, denúncia e transformação social. Sua obra, marcada pela vivência concreta da pobreza e da exclusão, continua ecoando como um chamado urgente à escuta e ao compromisso com os mais vulneráveis.

Nascida em 1914, em Minas Gerais, Carolina teve acesso limitado à educação formal, mas encontrou na escrita um caminho potente de expressão. Vivendo na favela do Canindé, em São Paulo, registrou em cadernos o cotidiano de fome, desigualdade e luta, dando origem à sua obra mais conhecida, Quarto de despejo (1960). Mais do que um diário, o livro se tornou um marco na literatura brasileira e um documento histórico que expõe as feridas sociais do país.

Na entrevista, Beta Ferreira destaca que Carolina não escrevia apenas sobre si, mas ampliava, com sua voz, a experiência coletiva de milhares de pessoas invisibilizadas. “Ela não desabafou sobre sua vida, ela ampliou com a sua voz as muitas vozes e corpos que são silenciados pelo sistema”, afirma. Para a pesquisadora, Quarto de despejo pode ser compreendido como um verdadeiro manifesto político, no qual a escrita se torna instrumento de denúncia, existência e resistência. Acompanhe a entrevista na integra:

ITESP: Beta, Carolina Maria de Jesus, mesmo com apenas dois anos de escolaridade formal, produziu uma obra extensa e profundamente marcada pela denúncia social. Como você avalia a potência da escrita de Carolina como instrumento de resistência e voz dos marginalizados no Brasil de ontem e de hoje?

Beta Ferreira: Carolina denunciou fomes, as muitas fomes sociais que assombram nosso país até hoje: violência doméstica, invisibilidade das pessoas em situação de vulnerabilidade, falta de políticas públicas, a vida de mãe solo e a sobrecarga das mulheres pretas. Quando ela relatou, em Quarto de Despejo, seus dias na Favela do Canindé, não desabafou apenas sobre sua própria vida; ampliou, com sua voz, as muitas vozes e corpos silenciados pelo sistema. Carolina sempre soube que, com sua escrita, podia denunciar, existir e resistir. E sua obra é a prova disso. Quarto de Despejo é, sem dúvida, um manifesto político.

ITESP: A obra Quarto de Despejo revela uma realidade de pobreza, fome e exclusão, mas também de dignidade e esperança. De que forma essa narrativa pode contribuir para a formação de alunos de Teologia, especialmente no que diz respeito à leitura da realidade e ao compromisso com os mais vulneráveis?

Beta Ferreira: A obra de Carolina é sobre escuta e cuidado; é sobre denúncia e desejo; é sobre voz e silêncio. Para os alunos de Teologia, contribui para uma escuta ativa, empática e transformadora. Eu costumo dizer que, quando leio Carolina, escuto a voz dela. Sua obra é fortemente marcada pela oralidade, o jeito de falar, escrever e sentir. Por isso, é importante que os alunos encarem isso como um convite feito por ela: “Me escutem atentamente, eu tenho algo para lhes dizer.” Mais do que as palavras escritas por Carolina, é fundamental que estejam atentos também ao que é dito nas entrelinhas de sua obra. Carolina fala em suas pausas e revela, no dia a dia, sua fé por uma vida, uma cidade e um país melhores.

ITESP: Considerando a atuação pastoral dos estudantes, como a trajetória e a escrita de Carolina Maria de Jesus podem inspirar práticas mais sensíveis, próximas e comprometidas com as periferias e com aqueles que vivem situações de vulnerabilidade social?

Beta Ferreira: Assim como o convite aos alunos seja “Escute, Carolina”, esse convite se amplia para as outras Carolinas em espaços vulneráveis. Reforço, então, que a atuação pastoral seja, em primeiro lugar, escutar atentamente o que o território e os corpos-territórios estão dizendo, antes mesmo de propor atividades. A trajetória de Carolina pode aproximar esses estudantes de seu legado, ajudando-os a encontrar força, coragem e inspiração. Trata-se de movimentar outros diários, que também podem nascer dessas existências, e de fazer com que, cada vez mais, a escrita e a literatura sejam possíveis para esse público.

ITESP: A produção de Carolina ultrapassou fronteiras, sendo traduzida em diversos países e permanecendo atual até hoje. Na sua visão, quais são os principais desafios e contribuições da obra de Carolina para pensar a sociedade contemporânea, especialmente em temas como desigualdade, racismo e justiça social?

Beta Ferreira: O maior desafio sempre será estar dentro de um sistema estruturalmente patriarcal, machista e racista. Mas é preciso compreender que, a partir da obra e do legado de uma vida inteira de escrita consciente de Carolina, que escrevia desde sua adolescência e possui obras em diferentes linguagens artísticas, somos constantemente inspirados a usar nossa voz para novas denúncias e a movimentar o sistema com pequenas e contínuas ações. Estar em diferentes lugares e com diferentes públicos, mostrando o quanto a produção intelectual nos pertence, é também empoderar novas Carolinas a se tornarem sinônimo de uma luta social digna e justa. Carolina Maria de Jesus contribui até hoje e nos ensina sobre persistência e verdade.

A partir da escuta atenta e das reflexões propostas, a obra de Carolina Maria de Jesus se revela não apenas como memória de um tempo, mas como denúncia viva e atual das desigualdades que ainda marcam a sociedade. Sua escrita ultrapassa as páginas e se transforma em convite à escuta, ao compromisso e à ação.

Para a formação teológica e para a prática pastoral, Carolina permanece como referência de uma fé encarnada na realidade, que nasce da vida concreta e aponta para a dignidade dos mais vulneráveis. Seu legado continua a provocar, inspirar e mover novas vozes, reafirmando que narrar a própria história também é um ato de resistência e transformação.

Por: Arison Lopes, Comunicação ITESP.

Imagem: Reprodução Internet.